11/10/2005
A videira verdadeira
por Cezar Andrade Marques de Azevedo

Jo 15:1 Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o viticultor.

Jo 15:5 Eu sou a videira; vós sois as varas. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.

Jo 15:17 Isto vos mando: que vos ameis uns aos outros.

Jo 15:26 Quando vier o Ajudador, que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que do Pai procede, esse dará testemunho de mim;

Não há nada que alegra mais uma criança do que as férias e, se estas podem ser usufruídas numa fazenda a alegria é tanto maior. Lembro-me da ansiedade por esses dias chegarem e, em especial, quando coincidiam com o fim do ano porque era a época de mangueiras frutíferas. Decepcionava-me profundamente quando ali chegava e não encontrava manga seja por ter sido uma má safra ou porque tinha passado da época, no entanto se a encontrava, me deliciava com esta fruta tão saborosa. Muitas vezes enchia minhas mãos de mangas para ir comendo enquanto cavalgava; alegrava-me se sabia que íamos para uma invernada com pés de manga pois realmente o fruto da mangueira - a manga, era um atrativo poderoso para minhas viagens de verão na fazenda

Agora, lendo este texto da Videira Verdadeira percebo que nunca questionei a mangueira acerca do tronco, dos cuidados do lavrador e muito menos de sua seiva que lhe dava a qualidade de vida correndo por entre as raízes, o tronco e galhadas. Se numa época eu não encontrasse o fruto sempre tinha por culpado o clima como um inverno rigoroso que derrubara as flores ou mesmo o fato de não ter chego no tempo certo ou ter após ele.

Creio que existe uma grande analogia entre esta divagação e a nossa busca de pessoas que realmente tenham vida fora do comum, que nos sirvam de modelo para identificar-nos com ela e aprimorarmos o nosso caráter. Não seria este o grande poder atrativo que tem as novelas quando procuramos nos identificar com os inúmeros personagens projetando nossas ansiedades e desejando ardentemente a sua vitória para que ela seja também a nossa? Ou quando tomamos conhecimento de grandes personagens como Duque de Caxias - o valoroso soldado; a madre Tereza de Calcutá - com sua capacidade de se dar aos mais pobre e tantos outros, anelando possuir sua firmeza de caráter e fortaleza de espírito?

Voltando-nos rapidamente para o texto de João 15 encontramos dois ideais deveras magníficos e muito desejados para o nosso viver que são:

1. Capacidade para fazer (por inferência da expressão - sem mim nada podeis fazer)

2. Capacidade de amar (o tipo de amor que nos leva a dar pelo amigo a nossa vida)

Por certo que se todos temos algum senso de realização que é o sentimento que surge ao findar uma tarefa e com o fato dela ter atingido determinado alvo. O sentimento será maior quanto mais difícil e complexa é a tarefa e quanto mais elevado for o alvo. E nem sempre se tem uma vida frutífera em realização por não se chegar a algum alvo pré-estabelecido e mesmo, por não se ter nenhum alvo por chegar. É por esta razão que a meta estipulada por Jesus Cristo sobe as alturas e Ele exige nada menos que a perfeição:

Mt 5:48 Sede vos perfeito como é perfeito o vosso pai que está nos céus

Agora quem pode se aventurar a dizer que atingiu a perfeição em qualquer atividade?!! Pode um arquiteto dizer: “este é um edifício perfeito e que atingiu todas as suas finalidades e tem estrutura apta a suportar qualquer abalo?”; pode um médico comentar: “esta foi uma operação perfeita que curou totalmente o paciente e não ficou sequer uma seqüela?”; pode o advogado vangloriar-se: “esta foi uma defesa perfeita, tanto na forma quanto no conteúdo?”. É comum, na leitura de livros de bolso, as estórias de faroestes contarem acerca de um homem que sacava sua arma como ninguém, que o tornava invencível contudo, façamos duelos entre personagens de diferentes estórias e sempre haverá um saque mais rápido e, mesmo que se chegue a um saque perfeito, ele não suportaria a prova do tempo.

De um modo geral a sociedade estabelece para si limites de realizações e todo aquele que, por sua capacitação, ultrapassa tais limites é considerado excepcional, louvado ou criticado por isso. O que ocorre é que nosso senso de realização é determinado por alvos que nós mesmos impusemos, não demasiados baixos que sejam fáceis demais alcançá-los, não demasiados altos que tornem impossíveis; temos esse parâmetro para não vivermos vidas frustradas. Assim temos dificuldade de entendermos as palavras de Jesus, que diz: sem mim nada podeis fazer (Jo 1:5b).

Alguém pode perguntar: - Por que desejaria eu a perfeição? Por que teria por alvo algo que só me traria frustração? Por que me perturbaria com tal alvo se encontro satisfação no que faço? Voltando-nos para as palavras de Jesus Cristo em Mt 5:48 sobre a perfeição e, lendo o contexto em que foi dita percebemos que a questão foi levantada a partir do momento em que ele amplia o amor ao próximo até enquadrar o amor os inimigos.

Pouquíssimas pessoas, por seu ateísmo declarado, negam Deus como Criador de todas as coisas, inclusive do homem. Ora, se somos criaturas e, por adoção divina, filhos, como Jesus declara, nada mais justos que sigamos o exemplo do Pai Celestial. Por isso Jesus utilizou como parâmetro para fazer sua proposição à observação de como Deus demonstra seu amor pela humanidade por meio da natureza, qual seja: o sol se levanta sobre maus e bons; a chuva desce sobre justos e injustos. Note a troca dos termos mau-bons, justo-injustos conotando a idéia de não haver acepção ou distinção de pessoas.

Então vem o segundo ideal desejado que é a capacidade de amar de forma tão sacrifical que chega a ponto de dar a vida pelos seus amigos, em outras palavras, um amor que se expressa em ação inquestionável de sua evidência.  Existem muitas razões para estarmos insensíveis ao amor sacrifical assim como estávamos para o ideal da perfeição, pois no mundo em que vivemos temos por tendência natural privilegiar as coisas as pessoas e, se duvidamos disso, observemos qual é a nossa atitude quando somos interrompidos numa leitura ou num serviço; o que não dizer se alguém, por imperícia, bater em nosso carro novo, usar nossa roupa emprestada ou pixar nosso muro recém pintado. Diariamente temos inúmeras provas que privilegiamos as coisas as pessoas e procuramos justificar com frases do tipo: é por falta de tempo, é porque custa caro, é porque sou irritado por natureza.

Também costumamos privilegiar os ricos aos pobres e os benfeitores aos amigos. nestes dois aspectos evidencia-se a capacidade do outro dar algo como numa relação de mútua correlação entre dar e receber, receber e dar, tanto melhor quanto mais dar do que receber, sem necessidade alguma de dar. por fim fazemos inteira distinção entre amigos e inimigos, sendo ao primeiro tudo e ao outro nada e, até mesmo o exercício do desprezo misto com ódio plenamente justificado contra os inimigos.

Tendo por natureza esse tipo de amor que está estabelecido na inteiração entre dar e receber com base naquilo que traz proveito a mim, estamos porém sempre pronto a reconhecer um tipo de amor mais elevado, como  no exemplo já citado de Tereza de Calcutá. o seu exemplo exerce fascínio sobre nós porque sua atitude para com o necessitado é caridosa e sacrifical. sabemos de antemão, sem que ninguém nos diga, que ela não receberá nada em troca pelo que faz por suas ações pela simples impossibilidade daqueles a quem ela atende dar algo em troca. esta atitude, por certo, é colocada por nós como digna apenas a homens excepcionais, que saíram dos limites estipulados pela sociedade, portanto não é para nós.

No entanto, quando Jesus tocou na questão da perfeição em Mt 5:48 Ele estava se dirigindo a uma multidão, ou seja, a sociedade de sua época,  o que se deduz que Ele considerava o ideal do amor sacrifical como meta para todo e qualquer indivíduo. Mas o que teria levado Jesus a redefinir o amor no que toca a sua abrangência? Devemos aqui pensar no propósito original de Deus concernente a criação do homem. Quando chegara o momento de criar o homem, ao contrário de todas as demais criaturas que estavam limitadas a apenas se reproduzirem, Deus disse: “façamos o homem a nossa imagem conforme a nossa semelhança gn 1:26 e ainda: não é bom que o homem esteja só” Gn 1:18a.

Com essas duas afirmações se estabelece que, em primeiro lugar, o alvo maior do homem é ser semelhante a Deus o que se define a capacidade de fazer e em segundo lugar a relação do homem com o seu semelhante é de que vivessem em união pois possui a capacidade de amar. por esta razão toda a lei foi resumida em dois mandamentos que diz: “amarás o senhor teu deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu pensamento e amaras o teu próximo como a ti mesmo” Mt 22:37,39.

Parece demasiado a ênfase no amor a Deus, a si e ao  próximo, contudo se confrontarmos com a nossa maneira natural de amar percebemos que estamos distante, uma vez que interagem em nós amor nos aspectos já citados: 1. privilegiar coisas a pessoas, 2. privilegiar benfeitor a amigos e 3. privilegiar amigos a inimigos. Com isso fica determinado, inclusive, o conflito existente com a nossa capacidade de realização a luz da palavra de Jesus. Nós realizamos, como nos exemplos referidos: o arquiteto no seu projeto, o médico na sua destreza e o advogado na sua eloqüência, ou seja, nós nos realizamos nas coisas, não nas pessoas, primariamente falando, e amamos por interesse e não sacrificialmente como deveríamos. Dessa forma no nosso viver está dirigido num curso errado por excelência e distante dos ideais manifestado por Jesus.

No entanto, a descoberta deste ideal de viver de forma elevadíssima: a perfeição, pode nos fazer refletir sobre nossos próprios alvos e prioridades, mas também pode nos levar a mais completa frustração, pois qual é o homem capaz de ser perfeito? creio que agora as palavras do Senhor faz sentido: “sem mim nada podeis fazer”, ganhando significado e amplitude. Qual é, então  a relação entre Jesus e nós em relação a esta forma de amor exigida que nos faz dirigir a esse novo propósito de vida?

Examinando mais detidamente o texto temos as seguintes imperativas e surpreendentes afirmações: “eu sou a videira verdadeira e eu sou a videira e vós as varas. ... Isto vos mando: que vos ameis uns aos outros”. Jesus usa de uma planta frutífera para expressar nossa relação com ele e, por analogia, podemos dizer assim: Jesus é o tronco, incluindo a raiz: ele é a raiz de Jessé (Rm 15:12) e nós somos os galhos. Ora, voltemo-nos um pouco para a idéia: Jesus é o tronco e, de um modo simples, podemos dizer que o tronco produz a vida ou seja, é o mantenedor da vida da árvore. levando em conta que o tronco, neste caso traz a idéia da raiz, realmente a idéia subjacente é que o tronco é aquele que contem a vida. A luz de João 1:4 a verdade torna-se mais expressiva, referindo-se do testemunho acerca de Jesus Cristo o evangelista declara que Nele estava a vida.

Examinemos a questão com base num fato dado dias antes de sua morte, quando ele se dirigia a Jerusalém.

Mt 21:19 e, avistando uma figueira à beira do caminho, dela se aproximou, e não achou nela senão folhas somente; e disse-lhe: nunca mais nasça fruto de ti. e a figueira secou imediatamente.

Como pode uma figueira secar-se com base em sua palavra se sabemos que toda inteiração de vida dela se dá entre seu tronco, suas raízes e solo? Afinal, que homem é este que até a natureza lhe é sujeita? A resposta se encontra em hebreus 1:3

Hb 1:3 sendo ele o resplendor da sua glória e a expressa imagem do seu ser, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo ele mesmo feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da majestade nas alturas,

Jesus não só tem a vida em si, como está no exercício de sua autoridade comunicar esta vida a outro, como também de cortar essa vida de outro como aconteceu com a figueira amaldiçoada. Presumo que Jesus viu e exerceu sua autoridade de uma certa distancia para comunicar essa idéia e isto implica dizer que, sendo ele a videira e nós as varas, não temos que estar fisicamente ligados a Ele para o Senhor comunicar vida em nós, mas essa ligação deve-se dar de alguma forma, pois a nossa capacidade de fazer depende de nossa íntima relação com ele.

Voltemos por um instante à mangueira ilustrada inicialmente. quando ia a fazenda esperava encontrar a manga, não procurava nem abacate, nem laranja, mas manga na mangueira. Isto porque as árvores obedecem a uma lei desde a criação: a cada uma é dado fruto segundo a sua espécie. então a qualidade de fruto que produzimos mostra: a capacidade de fazer (realizando algo inacabado, incompleto) e a capacidade de amar (motivado por interesse próprio). Estas realizações, por certo refletem o fato de não estarmos ligados a ele e, na verdade nem poderíamos estar antes de nascermos de novo.

Mas com sua vinda tudo muda pois Jesus veio para trazer a luz ao mundo, para fazer o homem conhecer a verdade acerca dele mesmo, como ele próprio falou:

Jo 15:22 se eu não viera e não lhes falara, não teriam pecado; agora, porém, não têm desculpa do seu pecado.

Sim, agora não temos como vangloriar de nossas realizações se elas forem menos que a perfeição e do amor se ele não for sacrifical. Quando Jesus transmitia essas verdades acerca de precisarmos dele para fazer qualquer coisa que fosse Ele falava a um grupo seleto de discípulos, do qual nem Judas, o traidor, participou . Logo essas verdades foram destinadas àqueles que haviam nascidos de novo, à sua igreja em formação. Se por um lado o mundo não tem desculpa de seu pecado, nós, a que nascemos de novo, não tem escusa de viver de modo diferente do que aquele proposto por Jesus:

Jo 15:15 Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamei-vos amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos dei a conhecer.

Apesar de termos consciência dessa verdade sentimo-nos enfraquecidos em nossa fé quando colocamos em prática seus mandamentos. A idéia de amar sacrificialmente torna-se um fardo quase insuportável e vemos a cada dia igrejas se dividindo, dissensões internas e secularismo crescente com a contínua valorização das coisas às pessoas. Tudo porque estamos tentando produzir o tão apreciado fruto por nós mesmos. Voltemos a mangueira: já pensou como seria ridículo eu pedir e, mesmo, exigir que os galhos da mangueira dessem fruto como se eles, por si mesmo, tivessem essa capacidade? Jesus disse:

Jo 15:4 Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim.

Mas isso é o que temos feito de contínuo, pois o nosso cristianismo tem sido uma fracassada tentativa de vivermos a vontade de Deus mediante a nossa própria capacidade. Pensemos um pouco na questão da santificação, pois nós sabemos de sua necessidade e a buscamos, mas quando a manifestamos muitas vezes ela consiste num interminável jogo de regras do tipo posso fazer, não posso fazer. O apóstolo Paulo colocou esta situação nestes termos:

Gl 4:9 agora, porém, que já conheceis a Deus, ou, melhor, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?

Em outro lugar ele acrescentou:

Cl 2:20-23 Se morrestes com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos sujeitais ainda a ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: não toques, não proves, não manuseies (as quais coisas todas hão de perecer pelo uso), segundo os preceitos e doutrinas dos homens? As quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria em culto voluntário, humildade fingida, e severidade para com o corpo, mas não têm valor algum no combate contra a satisfação da carne.

Este tipo de vida cristã é uma vã tentativa de cumprir as palavras de Cristo, de procurar dar fruto por si mesmo. Não temos nos qualificados um crente mediante certo estereotipo de viver? E quais seriam essas qualificações? Creio que um cristão “santificado” é visto como aquele que vai sempre a igreja, participa de todos os trabalhos, lê a Bíblia diariamente, tem um bom comportamento, se veste com decência, não participa de coisas como: jogo, bailes, ambientes impróprios e ainda uma série de outras evidencias equivalentes.

Na verdade, muitas dessas coisas tem seu valor de piedade e exercício espiritual, creio até que o verdadeiro cristão deveria ser assim identificado. Então onde está o erro? Está em que todas essas características se manifestam por evidências externas do tipo: “não toques”, “não provem”, “não manuseies”. E é este evangelho de santificação que temos apresentado e vivido, um evangelho de ordenanças na medida que dirigimos nossas exortações com o intuito de produzir este viver exteriorizado.

Conta-se que alguns jovens foram disciplinados numa igreja porque após o culto eles foram a um circo da cidade. O que motivou a disciplina foi o fato deles estarem fugindo das características esperadas deles e manifestas em suas atitudes, exemplos assim se multiplicam.  Acontece que com o tempo teremos muitos santos que testificam sua fé pela sua vida exteriorizada e nos contentamos com isso, mas pergunta-se: quem foi disciplinado por não amar, por ser avarento e coisas assim?

Tudo porque estamos tratando a questão toda na perspectiva errada. Temos nos preocupados por demais em nós mesmo produzirmos os frutos, esquecendo-nos que Jesus disse:

Jo 15:5a Eu sou a videira; vós sois as varas. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto;

Alguém ainda pode dizer que para ele o importante não é o aspecto exterior demonstrado mas o fruto do Espírito, ou seja, uma vida autêntica. E então começar a dizer: devemos amar, ter paciência, ter domínio próprio, sermos bondosos e assim por diante. Note a palavra “devemos”. Não é essa uma forma disfarçada de produzir o fruto pela nossa própria energia? Não me parece que Jesus queria dizer que eu estou Nele e produzo fruto por mim mesmo como duas atitudes distintas uma da outra. A questão toda é: não se espera do galho produção do fruto como parte de sua própria atividade pela simples razão que o fruto dado por ele é parte de sua própria natureza e esta se manifesta invariavelmente como diz o salmista:

Sl 1:3 Pois será como a árvore plantada junto às correntes de águas, a qual dá o seu fruto na estação própria, e cuja folha não cai; e tudo quanto fizer prosperará.

Em outras palavras, se realmente fizermos o que Jesus nos pediu então dar fruto será tão natural como respirar porque está escrito:

Jo 1:16 Pois todos nós recebemos da sua plenitude, e graça sobre graça.

É esta plenitude recebida que nos capacita a amar e todas as demais variações do fruto do Espírito são conseqüências dela. Podemos dizer assim: acerte seu relacionamento com Cristo e tudo o mais será acertado. Observe que quando estava por terminar as instruções acerca da Videira Jesus anunciou a vinda do Espírito Santo como Aquele que iria testificar a respeito de Cristo Jesus e em seguida acrescentou que os próprios discípulos testificariam. Esta relação entre o testemunho do Espírito e o nosso não é casual mas está intimamente vinculada porque, como se vê em Jo 16:13, a função do Espírito Santo é de nos guiar em toda a verdade.  Sobre isso o apóstolo João acrescenta em outro texto:

I Jo 2:6 aquele que diz estar nele, também deve andar como ele andou.

Ora, como foi o andar de Jesus senão a expressão máxima da afirmação em Lucas:

Lc 4:1a Jesus, pois, cheio do Espírito Santo, ...

Pelo que Ele afirmou acerca de si mesmo, tendo como referencia o texto de Isaías:

Lc 4:18,19 O Espírito do Senhor está sobre mim, porquanto me ungiu para anunciar boas novas aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e para proclamar o ano aceitável do Senhor.

Em tudo isso há uma verdade preciosa para aquele que realmente está desejoso ter o fruto em sua vida de ter o fruto em sua vida, ele se apercebe que este fruto em sua vida é a plena liberdade do Espírito e apenas por intermédio dEle. Por esta razão Jesus disse aos apóstolos após sua ressurreição que convinha a eles esperar em Jerusalém até que do alto fossem revestidos de poder (Lc 24:49). Não estavam eles preparados? Não testemunharam a Jesus ressurreto? Então porque esperar? Porque Jesus disse:

Jo 15:4 Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim.

A verdadeira fonte de poder procede do Espírito Santo a partir do momento que lhe é permitido trabalhar conosco. Então lemos:

Jo 15:1b ..., e meu Pai é o viticultor.

Jo 15:2b ...; e toda vara que dá fruto, ele a limpa, para que dê mais fruto.

Se existe alguém interessado em que haja vida espiritual produtiva, este é Deus, o Pai. Tal propósito foi evidenciado na vida dos israelitas quando por intermédio de Isaías, Deus fala de Seu amor:

Is 43:1 Mas agora, assim diz o Senhor que te criou, ó Jacó, e que te formou, ó Israel: Não temas, porque eu te remi; chamei-te pelo teu nome, tu és meu.

E acrescenta:

Is 43:21 esse povo que formei para mim, para que publicasse o meu louvor.

Tanto na história de Israel como na própria criação do mundo a ação sempre procede de Deus para o homem.  Quando Deus criou o mundo, o homem não fez parte de seu conselho, pelo contrário, foi também produto de sua criação. O mesmo se deu com Israel pois quando ele chamou Abraão, não consta que tenha sido este a tomar a iniciativa, mas se refere apenas a sua obediência., com isso Deus estava criando Israel através dele.

Tendo o homem pecado, novamente Deus toma a iniciativa para argúí-lo e para remi-lo ao prometer a semente da mulher. E quando Israel estava sendo escravizada no Egito ele foi ao seu encontro, libertando-os com grande poder. Tudo para que, mediante tal demonstração de graça, brotasse do mais íntimo da alma um profundo sentimento de gratidão que jorrassem em louvor ao seu nome. Este propósito não mudou após a vinda de Jesus, pelo contrário, permanece imutável como vemos na afirmação de Paulo aos Efésios:

Ef 1:12 com o fim de sermos para o louvor da sua glória, nós, os que antes havíamos esperado em Cristo;

É por esta razão que o Pai é o Lavrador, pois é Ele toma todas as iniciativas para conduzir o Seu povo, fazer os enxertos necessários na videira, podar os galhos inúteis e para limpar os promissores. O que nos traz grande alegria pois antes de falarmos sobre a necessidade de santificação no coração de cada um, Deus já terá falado  e esse é o clamor de nosso coração em uníssimos. E se não falarmos Ele estará de qualquer maneira trabalhando conosco de modo a conduzir nos segundos o Seu propósito. Qual é então o instrumento de limpeza pela lavrador?

Jo 15:3 Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado.

Convém atentar com mais cuidados para essa assertiva. Jesus estava falando com seus discípulos na quinta feira. No dia seguinte seria crucificado. Recuado no tempo vemos que já se passaram três anos desde que Ele reuniu aquele seleto grupo que como Ele disse: “estiveste comigo desde o principio” (Jo 15:27). Assim, sem que os discípulos percebessem, Ele trabalhara em seus corações desde o início de seu ministério. Neste ínterim, os discípulos pouco compreenderam o verdadeiro caráter de sua missão. Pouco antes de iniciar a última semana de sua vida os discípulos discutiam pelo direito de assentar a Sua destra e reinar. Ele lhes falava quno momento não era compreendido, mas o seria mais tarde, contudo a palavra fazia o efeito desejado, os limparam.

Voltemo-nos um pouco para a criação do mundo. Consta que no princípio o Espírito de Deus pairava sobre as águas e, a partir do momento em que Deus emitira suas ordens todas as coisas foram sendo feitas, por isso o Espírito Santo é chamado de Espírito de Deuse . E Jesus, por diversas vezes reiterou que as palavras que eram ditas por Ele não eram Dele, mas as que Ele ouvira do Pai, sendo Ele mesmo o Verbo que se fez carne. De forma que Jesus era o instrumento vivo de Deus para comunicar Suas palavras e Ele a fazia pelo poder do Espírito Santo. Assim, as Escrituras são instrumentos escritos de Deus para comunicar Suas verdades mediante a revelação do Espírito Santo.

Ora, como tudo isso pode cooperar para que nossa vida produza fruto? Talvez a história de Marta e Maria possa nos ajudar a entender. Marta estava ansiosa e afadigada com muitas coisas e Maria sentara-se aos pés de Jesus para ouvi-lo. No entanto Jesus dissera que Maria havia escolhido a melhor parte que era ouvi-Lo (Lc 10:38-42). Marta representa todo aquele que procura pelo seu muito fazer agradar a Deus ou mesmo aquele que se esforça em santificar-se por sua própria energia. Tudo isso é bom mas nada se compara àquele que procura antes ouvir a Deus e é esta a ênfase toda da expressão “quem está em mim”. O verdadeiro caráter da vida cristã só se manifesta naquele que procura ouvir ao Senhor Jesus. Quantas vezes é dito em Apocalipse: “quem tem ouvido ouça o que o Espírito diz as igrejas”. Jesus acrescenta:

Jo 15:7a Se vós permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, ...

Essa expressão “minhas palavras” caracteriza-se quando há um emissor, que é Cristo e um receptor, que somos nós, fechando o circuito da comunicação. Todo o propósito de Deus é que paremos para ouvi-lo como foi testificado no dia em que o Senhor se transfigurou diante dos discípulos:

Mt 17:5 Estando ele ainda a falar, eis que uma nuvem luminosa os cobriu; e dela saiu uma voz que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi.

E o autor aos Hebreus acrescenta:

Hb 1:1 Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias a nós nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por quem fez também o mundo;

O segredo espiritual da vara é permanecermos ligado na Videira Verdadeira, que é Cristo, ouvindo-o. Tanto Deus, o Pai quando Deus, o Espírito Santo tem condição de trabalhar nossas vidas para o propósito divino quando ouvimos a Cristo. Cumprir o mandamento de amor uns aos outros torna-se possível quando o ouvimos; ter as orações respondidas é uma certeza quando o ouvimos; testificar dele nos é natural quando o ouvimos; ser perseguido ou fazer discípulos é uma realidade de vida quando o ouvimos; somos seus amigos quando o ouvimos; enfim, o fruto é decorrência natural de nossa vida quando o ouvimos. No mais tudo é esforço desesperado do homem em viver uma vida cristã produtiva. Poderemos apresentar alguma coisa, mas jamais será comparado com o fruto daquele que se coloca na condição de quem ouve ao Senhor Jesus, pois o segredo espiritual é esse: ouvir o que Cristo Jesus tem a dizer.