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Nossa casa, nossa vida

Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também. E vós sabeis o caminho para onde eu vou. (Jo 14.1-4)

 
Havia muita tensão entre os discípulos naquela noite. O Senhor Jesus vinha já a muito anunciando sua morte e ressurreição, contudo eles não compreendiam o significado de Suas palavras. O povo judeu cria na vinda do Messias com o propósito de instaurar o reino de Deus, livrando-o da opressão de seus inimigos. Para compreendermos a crença deste povo precisamos recuar no tempo.
 
A história do povo judeu se inicia em algum lugar chamado Ur dos Caldeus, hoje conhecido como Iraque. Naquela época a região era palco de uma pujante civilização, com efervescente comércio com as cidades vizinhas, vindo a tornar-se no grande império babilônico. Ao deixar esta região, Abrão partia para o desconhecido, uma terra que só conheceria quando nela chegasse. Depois de viver alguns anos em Harã, às margens do rio Eufrates, Abrão prosseguiu sua jornada até chegar em Canaã. Foi quando ouviu da parte de Deus ser a terra que sua descendência haveria de herdar (Gn 12.7).
 
Abrão viveu em Canaã como peregrino, como também seu filho Isaque e seu neto Jacó, também conhecido como Israel (Hb 11.9). Deus revelara a Abrão que, antes da posse de Canaã, seus descendentes haveriam de excursionar por terras desconhecidas por um período de quatrocentos anos. Nesta terra seu povo haveria de tornar-se escravos, contudo sairiam com grande riqueza (Gn 15.13,14). Este evento cumpriu-se tal como Deus dissera, pois Israel mudou-se para o Egito com setenta pessoas, vindo a constituir-se um grande povo quatrocentos anos depois. Ao saírem do Egito foram contados seiscentos mil homens, sem contar mulheres e crianças (Ex  12.37).
 
Moisés fora responsável pela libertação de Israel do jugo egípcio. Antes de reconduzi-los para a terra prometida, Moisés advertira que a permanência de Israel naquela terra dependia de sua obediência à aliança de Deus. Por meio de atos solenes, Moisés pronunciou bênçãos e maldições para o povo: “a bênção sobre o monte Gerizim e a maldição sobre o monte Ebal” (Dt 11.29). Dentre as maldições havia uma, em especial, que afetaria profundamente o povo judeu: “O SENHOR vos espalhará entre todos os povos, de uma até à outra extremidade da terra…”  (Dt 28.64).
 
Os anos se passaram e, por voltar-se à idolatria, Israel foi desterrado. Antes, após o governo do rei Salomão, o povo dividiu-se em dois reinos: Israel ao norte e Judá ao Sul. Israel foi o primeiro a ser atingido pelo vaticínio de Moisés. No ano de 722 a. C. o povo assírio levou cativo os israelitas para a Assíria e obrigou Judá a pagar alta carga tributária para não terem a mesma sorte. Mesmo sendo advertido por inúmeros profetas, Judá também se deixou enredar pela idolatria, vindo a ser prisioneiro da Babilônia no ano de 586 a.C.
 
Até hoje as dez tribos do norte são consideradas desaparecidas, Judá, por outro lado, permaneceu sob o jugo babilônico e medo persa por 70 anos. Por mão do rei Ciro, da Pérsia, tiveram permissão para voltar para Canaã, vindo a reconstruir os muros e o templo de Jerusalém. Mesmo em sua terra, Judá  ficou provido de sua liberdade, sendo tributário também dos gregos. Entre os anos de 164 a 37 a.C, um grupo de judeus conhecidos como Macabeus formaram um exército rebelde conseguindo livrar o povo do jugo grego. Este tempo de liberdade durou pouco, pois no ano de 37 a.C. foram subjugados pelos romanos.
 
Em que pese o fato dos romanos terem implantado em todo seu domínio a paz romana, Israel viveu sob terrível opressão econômica, política e religiosa. Os publicanos, coletores de impostos das províncias para o governo romano eram a emblemática representação daquela época.  Eles eram odiados pelos judeus por sua atitude corrupta e déspota. Os publicanos eram o próprio retrato do pecador na visão do povo judeu.
 
O que confortava o povo judeu diante de tão terrível opressão era sua esperança messiânica. O reinado de Davi, seguido com o de Salomão, fora não só glorioso, como também sedimentado com a promessa de sua perpetuação. Dentre as promessas, uma, em especial, forjava no coração judeu a esperança da redenção: “Prepararei lugar para o meu povo, para Israel, e o plantarei, para que habite no seu lugar e não mais seja perturbado, e jamais os filhos da perversidade o aflijam, como dantes” (II Sm 7.10). Naquela noite os discípulos ainda cultivavam a esperança do pleno cumprimento desta promessa. Mesmo ouvido da boca do Senhor Jesus que Ele haveria de morrer e ressuscitar, esta mensagem lhes era incompreensível e não ousavam questioná-lo (Mc 9.32), antes disputavam entre eles quem haveria de ocupar o primeiro lugar quando o reino fosse instaurado (Mc 10.37). Assim, os discípulos estavam certos que o reino de Deus haveria de ser instaurado nos seus dias, o império romano seria derrotado e o povo judeu teria sua antiga glória restaurada de uma vez por todas. O Messias haveria de lhes prover um mundo além de toda utopia.
 
O anseio dos discípulos não é muito diferente daquele que nutre todo homem de bem. A indignação contra a corrupção, injustiça e impunidade traz angústia, tristeza e desesperança. A alta carga tributária, o famigerado custo Brasil e os juros extorsivos desmotivam o crescimento econômico, empobrecem a classe média e empurram os pobres para a periferia, completamente desassistido pelo Estado. O aumento da inflação, o descontrole das contas públicas, a falta de investimento em infra estrutura, a desatenção para com a saúde e educação, tudo isso se apresenta como uma sombra que avança sobre o futuro. Esta angústia e aflição faz com que o povo se levante contra o governo, num clamor que percorre do norte ao sul da nação. Os homens de bem não se conformam que esta nação fique aquém do seu potencial. A Indignação faz alguns perderem o controle de seus atos, refletindo em atos violentos, destruindo o patrimônio alheio. As eleições trazem consigo a esperança que esta natureza de coisas possa ser mudada e o país possa reencontrar sua história e sua glória.
 
Naquela noite o Senhor Jesus poderia ter restaurado as esperanças dos seus discípulos. Antes, inclusive, dissera algo que poderia levar seus discípulos a entender que o Senhor haveria de restaurar a liberdade de Israel sob a força das armas. Jesus dissera: “… Agora, porém, quem tem bolsa, tome-a, como também o alforje; e o que não tem espada, venda a sua capa e compre uma” (Lc 22.36). Logo alguém apressou-se a informar haver duas espadas entre eles, ao que o Senhor dissera: basta! (Lc 22.38). Muitos acreditam piamente que a violência é a única solução contra a opressão e se mostram dispostos a usar de todo tipo de recursos à mão para expressar sua indignação.
 
O Senhor, contudo, dissera a eles que haveria de ir para um lugar solitário, ninguém poderia acompanha-lo. O espectro da morte estava sobre Ele. Um dos seus discípulos, Judas, o traidor, já o vendera por trinta moedas de prata. A ordem de prisão já fora emitida contra o Senhor Jesus. Sua prisão era eminente. Jesus chegara a separar três de seus discípulos consigo para orar por esta hora e seus discípulos não suportara uma hora de oração, caindo no mais profundo sono (Mc 14.37). É a sombra da morte que faz as pessoas voltarem-se contra os governos constituídos imersos em corrupção. Na visão destes a ameaça sobre suas vidas justificam suas atitudes, não importa a forma que elas venham a tomar. Acerca do poder da morte sobre o comportamento dos homens está escrito: “… pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida” (Hb 2.15).
 
É neste contexto que o Senhor Jesus declara: “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim” (Jo 14.1). Todo aquele que considera que a totalidade de sua esperança se resume nesta vida, não lhe resta outra alternativa senão indignar-se contra o governo opressor e lutar por sua derrocada. Para estes é impossível ver o agir de Deus em meio a corrupção e a injustiça. Eles entendem que Deus abdicou de governar este planeta e precisam, portanto, fazer justiça com suas próprias mãos. Os mais afoitos o fazem por meio da violência, os mais simplórios tentam mudar sua sorte por meio do voto, nas eleições. Ambos anseiam uma mesma coisa, serem livres  da opressão.
 
Nós, igreja, corpo de Cristo, precisamos tirar nossos olhos de Brasília e voltar-nos para Deus. Devemos nos lembrar, quando a angústia tende a prender nosso coração na ira e na revolta, das palavras do salmista: “Elevo os olhos para os montes: de onde me virá o socorro? O meu socorro vem do SENHOR, que fez o céu e a terra” (Sl 121.1,2). Precisamos crer em Deus e em Sua palavra, porquanto o salmista pode testemunhar e nós também podemos fazê-lo: “Livrou-me de forte inimigo e dos que me aborreciam, pois eram mais poderosos do que eu” (Sl 18.17). Precisamos entender que Deus governa a história e que, mesmo que o governo opressor nos leve para a cruz, nossa esperança está um pouco depois dela, vida eterna. Nós não estamos condicionados a esta dimensão tão somente, temos outra nos esperando, muito mais real e gloriosa do que esta, porquanto o próprio Senhor Jesus nos prometeu: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar” (Jo 14.2). A leitura que devemos fazer da opressão não é a que necessariamente devemos erradica-las por nossa própria força e senso de justiça, antes ela é o prenúncio que aqui não é nossa casa, antes o Senhor está bem próximo de voltar para nos buscar afim de que estejamos com ele para sempre. Esta é nossa esperança, isso é o que verdadeiramente nos motiva a viver.

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